Antes de privatização, números projetam melhor resultado da estatal pelo menos desde 2012

 

Por Daniel Rittner — De Brasília

 

Com sua privatização apontada como prioridade pela equipe econômica, a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) caminha para um lucro bilionário neste ano e deve ter seu melhor resultado pelo menos desde 2012.

 

O balanço preliminar de janeiro a setembro está positivo em R$ 836,5 milhões, segundo dados internos da estatal obtidos pelo Valor. A chegada do último trimestre, quando o faturamento dos Correios tradicionalmente aumenta por causa das encomendas relacionadas à Black Friday e ao Natal, aumenta as chances de um lucro superior a R$ 1 bilhão.

 

“Tudo caminha para isso. Tivemos anos em que o resultado estava negativo até setembro e, quando se pega o desempenho do último trimestre, registra-se lucro na casa de dezenas ou centenas de milhões de reais”, afirma o vice-presidente da Associação dos Profissionais dos Correios (ADCAP), Marcos César Silva, que integrou o conselho de administração da estatal por cinco anos.

 

Em 2012, o lucro alcançou R$ 1,113 bilhão. Depois, foram quatro anos seguidos de prejuízo. O resultado só voltou ao azul em 2017, mas graças a uma virada contábil de última hora. Naquele ano, o déficit operacional estava perto de R$ 2 bilhões. O que houve foi uma mudança das premissas atuariais no registro conhecido como “benefício pós-emprego”, com uma redução de gastos meramente contábil, por causa de alterações no plano de saúde dos empregados. Mesmo sem refletir equilíbrio entre receitas e despesas, a ECT registrou R$ 667 milhões de lucro.

 

O resultado parcial de 2020, entre janeiro e setembro, já elimina boa parte das perdas verificadas com a greve de 35 dias dos funcionários dos Correios. A paralisação terminou no dia 22 de setembro.

 

Quase metade de suas receitas atuais provém de encomendas expressas. A companhia postal detém 44% do mercado brasileiro, que já é aberto à concorrência nesse segmento, e a pandemia de covid-19 gerou uma explosão do e-commerce. A Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (Abcomm) projeta crescimento em torno de 30% para este ano.

 

Para o ex-conselheiro Marcos César, a perspectiva de lucro bilionário neste ano demonstra que os Correios têm capacidade de enfrentar o desafio de modernização e enfraquece o discurso de que a estatal corre o risco de tornar-se dependente do Tesouro Nacional. Um dos requisitos para que isso ocorra é a repetição de prejuízo por dois anos seguidos.

 

Em setembro, o secretário especial de Desestatização do Ministério da Economia, Diogo Mac Cord, disse temer que os Correios se transformem numa empresa dependente no futuro próximo.

 

“Mostra que a alternativa à privatização é caminhar na beira de um vulcão”, afirmou Mac Cord na ocasião. “De imediato, a consequência de virar dependente é concorrer no orçamento com todo o resto da administração pública. As despesas dos Correios somam R$ 20 bilhões ao ano. Se esse valor entrar no Orçamento Geral da União, alguém perde cifra igual.”

 

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) contratou um consórcio - formado pela Accenture e pelo escritório Machado, Meyer, Sendacz, Opice e Falcão Advogados - para fazer os estudos prepatórios de privatização. A intenção do governo é concretizar a venda até 2022.

 

Procurada, a atual direção dos Correios evitou confirmar os números. “Os resultados financeiros de 2020 serão divulgados tão logo sejam contabilizados e auditados internamente. Dessa forma, quaisquer valores informados antecipadamente não têm caráter oficial, configurando mera especulação”, afirmou a assessoria da empresa.

 

“É fato que a atual administração tem trabalhado em prol da recuperação do equilíbrio financeiro da instituição. Em razão das diversas medidas de racionalização de gastos e aumento de receita, é natural que os indicadores financeiros demonstrem melhora.”

 

(Valor Econômico - 25/11/2020)