Fernando Torres, Graziella Valenti e Silvia Fregoni, de São Paulo
Após um movimento surpreendente em 2009, o mercado de capitais deve ter desempenho ainda melhor em 2010. Há dúvidas sobre a possibilidade de que no ano que vem o volume das ofertas de ações transponha a marca de mais de R$ 45 bilhões deste ano, mas a expectativa é que o número de operações supere as 25 realizadas ao longo de 2009.
A questão em relação ao volume é que este ano houve duas megaoperações, de VisaNet e Santander, que juntas movimentaram R$ 21 bilhões, quase a metade de todo o montante de ofertas. Fora isso, o total de 2009 coloca o ano como o segundo melhor desde a revitalização do mercado, em 2004, atrás somente de 2007, quando as transações somaram R$ 70,1 bilhões. Frente a 2008, ano que sofreu com a crise, a alta foi maior que 38%.
No fim do ano passado, quando a turbulência financeira ainda estava no seu pior momento, havia a perspectiva de que 2009 seria um ano perdido para o mercado de capitais. Os investidores aceitariam, quando muito, operações de empresas gigantes e consolidadas, mas dificilmente de médias.
Já no segundo semestre o quadro mudou e as ofertas públicas de ações começaram a pipocar, especialmente de companhias já listadas, que voltaram ao mercado para se financiar. Para que essa diferença fique mais clara, ocorreu uma distribuição em março, da Redecard, duas no fim de junho - VisaNet e MRV - e mais de 20 operações desde o início de julho.
Para 2010 as apostas positivas se concentram especialmente em número de aberturas de capital (IPOs, na sigla em inglês), que neste ano foram apenas sete - VisaNet, Tivit, Santander, Cetip e Direcional, além de Fleury e IMC, que devem concluir a operação nesta semana. A percepção é que, com um cenário econômico mais otimista, haverá mais apetite dos investidores para esse tipo de operação.
"O número de ofertas deve ser maior em 2010, até porque devemos ter dois semestres de atividade para o mercado de capitais", diz Daniel de Miranda Facó, sócio do escritório Machado, Meyer, Sendacz e Opice.
Na fila para o próximo ano já estão oficialmente Brazilian Finance & Real Estate do lado das aberturas de capital e Metalfrio Solutions, Cruzeiro do Sul e M. Dias Branco entre as empresas listadas. Esta última pretende levantar cerca de R$ 600 milhões. O banco planeja captar R$ 400 milhões.
Entre os favoritos para ir ao mercado os especialistas destacam setores voltados ao mercado interno e infraestrutura. Para Alberto Kiraly, vice-presidente da Associação Brasileira de Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), há um apetite por ativos de empresas ligadas ao consumo, a exemplo do que ocorreu em 2009.
Outro que faz essa análise é Sergio Cutolo, diretor do BTG Pactual. "De locadoras de veículos a varejo e indústria de alimentos, muitas empresas vão acessar o mercado." Ele revela que a instituição já tem muitos mandatos para realizar ofertas. "Crescer 5% em um país com problemas de investimento e poupança não é fácil. As empresas vão demandar operações de mercado para financiar a expansão."
Outros vetores que devem nortear o mercado de capitais em 2010 são a Copa do Mundo e a Olimpíada, que podem atrair, por exemplo, mais empresas de infraestrutura para a BM&FBovespa. Há atenção também à cadeia do petróleo, por conta da demanda de investimentos que deve ser gerada com a exploração do pré-sal.
Do lado dos investidores, a percepção é que o humor melhorou, especialmente entre os estrangeiros, o que permite inclusive a volta das operações de menor porte. "Todos querem aproveitar a 'onda' Brasil. O país virou moda", afirma o diretor do BTG Pactual. Neste ano, os aplicadores do exterior foram os principais compradores, por vezes absorvendo mais do que a média de 70% das colocações.
Para Pedro Bastos, diretor do HSBC Investments, é normal que a aversão a ativos que não sejam super líquidos diminua com a estabilização do cenário. "Mas o padrão de análise fundamentalista continuará no próximo ano. A crise ainda é vívida na cabeça das pessoas, inclusive do pequeno investidor."
Bastos ressalta ainda que a expansão de fluxo destinado ao Brasil após a conquista do grau de investimento acabou não se concretizando plenamente, por conta da crise, que interrompeu o movimento. Na opinião dele, se não houver surpresas em 2010, muitos recursos novos devem vir para o país, e renda variável continuará sendo a opção de maior interesse.
Há também preocupação para se evitar os exageros de 2007, quando companhias ainda não totalmente preparadas para a vida de empresa aberta entraram na bolsa. "O maior problema foi a drástica mudança da economia, que afetou todas as empresas, principalmente as que precisavam crescer rapidamente", diz Cutolo.
Sidney Ito, sócio da área de governança corporativa da auditoria e consultoria KPMG, acredita que as companhias aprenderam a lição de alguns casos resultantes da euforia de 2007.
O executivo da KPMG destacou que, para 2010, o cenário regulatório vai demandar mais responsabilidade dos administradores. E lembrou da Instrução 480 da Comissão de Valores Mobiliários, de dezembro, que exige que as empresas estejam com os processos internos ajustados antes de pensarem em ir ao mercado. Há ainda o novo padrão contábil, que envolve procedimentos detalhados e mais responsabilidade.
(Valor Econômico 17.12.2009/Caderno F12)
