Por Fernando Torres, | De São Paulo

Quase três anos depois de receber a primeira empresa, o Bovespa Mais, segmento de acesso do mercado de ações da BM&FBovespa, finalmente deve ter sua segunda listagem. A empresa de saneamento Companhia de Águas do Brasil (CAB Ambiental) protocolou pedido de registro de oferta pública primária de ações na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e informou que pretende ter suas ações negociadas nesse mercado.

Além da CAB Ambiental, que detém concessões de serviço de água e esgoto em municípios do interior de São Paulo e Mato Grosso, pelo menos mais duas empresas planejam fazer companhia à pioneira Nutriplant(fabricante de micronutrientes) e colocar seus papéis no Bovespa Mais em 2011.

Em seminário realizado no fim de novembro, Sérgio Spinelli, advogado do escritório Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey Jr. e Quiroga Advogados, havia dito, sem citar nomes, que das mais de 40 ofertas de ações que ele projeta para o ano que vem, três deveriam ocorrer no segmento de acesso. O escritório dele, ao lado do Machado Meyer Sendacz Opice, atua como assessor jurídico na oferta da CAB.

Desde a estreia da Nutriplant em fevereiro de 2008, com uma emissão de apenas R$ 21 milhões, as explicações para a demora para haver uma segunda oferta costumam ser parecidas. Uma delas é a falta de apelo para as empresas, que diante dos pequenos descontos regulatórios, preferem crescer e ir direto ao Novo Mercado. Mas cita-se também desinteresse dos bancos intermediários, por conta das comissões mais baixas, e ausência de investidores dispostos a comprar ações com baixa liquidez.

Em resposta aos pontos levantados, a BM&FBovespa usa basicamente dois argumentos. O primeiro é que o sucesso de mercados de acesso no Reino Unido, em Hong Kong e no Canadá, por exemplo, seria uma evidência de que há interesse nesse tipo de segmento, tanto do lado do emissor como do investidor. O segundo é que é preciso dar tempo ao tempo, tendo como base a experiência do Novo Mercado. Criado no fim de 2000, o segmento de maior exigência da bolsa paulista teve sua primeira empresa em janeiro de 2002, com a entrada da empresa de concessões de rodovias CCR. A segunda ocorreu somente em maio de 2004, quando houve a estreia da Natura. Na sequência da fabricante de cosméticos, das outras seis companhias que abriram capital naquele ano, quatro levaram seus papéis para o Novo Mercado.

"Há um pouco de resistência entre as empresas de ser a segunda ou a terceira num novo segmento. Quando há uma sequência ajuda", disse Cristiana Pereira, diretora de desenvolvimento de empresas da BM&FBovespa, em entrevista concedida no início deste mês.

Em relação aos pedidos de flexibilização das exigências regulatórias ligadas ao Bovespa Mais, ela afirmou que é falsa a ideia de que é preciso menos regras para um mercado crescer, citando como exemplo o Novo Mercado, mais exigente que os demais e que concentra a maior parte das ofertas. Ainda assim, Cristiana admitiu que a bolsa tem conversado com diferentes agentes de mercado para colher opiniões e sugestões com o intuito de aperfeiçoar as regras do mercado de acesso.

Alguns dos pontos estudados não estão na alçada da bolsa, mas ligados ao Formulário de Referência, documento anual de informações exigido pela CVM, e à obrigação de publicação de balanços.

Atualmente, entre os descontos mais evidentes do Bovespa Mais está o prazo de sete anos para se atingir o mínimo de 25% do capital em circulação, enquanto na operação tradicional esse percentual é exigido no momento inicial, embora haja exceções.

No boom das ofertas de ações visto em 2007 no Brasil, muitas empresas menores aumentaram o volume de papéis vendidos apenas para atingir esse limite de 25% e entrar no Novo Mercado, mas depois ficaram com mais dinheiro do que precisavam no caixa. "O ideal é que o volume captado seja adequado ao plano de negócios. Aí a empresa aplica os recursos, mostra o resultado e volta para captar mais", explicou Cristina.

Outra questão que precisa ser resolvida para o sucesso do Bovespa Mais tem a ver com os intermediários, que é bem ilustrada na minuta do prospecto da oferta da CAB Ambiental. O coordenador líder é o banco J. Safra, que raramente aparece em tal posição nas ofertas dos últimos anos. Atuam como assessores financeiros também a Plural Capitale a Dalty, butiques formadas por ex-executivos de bancos de investimento, entre os quais o UBS Pactual.

Fabio Alperowitch, sócio da Fama Investimentos, é um dos que acreditam que um mercado diferente como o Bovespa Mais precisa de novos intermediários.

"Você não vende Rolex e cimento no supermercado", exemplifica o gestor de recursos, ao contrapor o argumento dos bancos de investimento líderes de mercado, que costumam dizer que os investidores não se interessam por ações com baixa liquidez, como as do Bovespa Mais.

Para ele, que vê alta demanda, todo o processo de distribuição tem que ser remodelado. Em vez de se fazer reunião com um número enorme de pessoas, deve se procurar um grupo reduzido de investidores de longo prazo. Além disso, é preciso mais tempo para análise, e não apenas as tradicionais duas semanas das ofertas comuns.

(Valor Econômico 23.12.2010/Caderno D7)

(Notícia na Íntegra)