O ano de 2010 começa repleto de opções para os investidores em
termos de ofertas públicas de ações. Inpar, PDG Realty, Aliansce
Shopping Centers e Multiplus já divulgaram o calendário das suas
operações, que podem movimentar até R$ 4,7 bilhões no cenário mais
otimista. E todas essas ofertas serão concluídas ainda antes do
carnaval.
Colocando na conta também as operações da M. Dias Branco,
Metalfrio e Cruzeiro do Sul, que estão em análise na Associação
Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais
(Anbima), o volume sobe para R$ 6 bilhões.
A BR Properties está com pedido de oferta pública inicial de ações
(IPO, na sigla em inglês) em análise na Comissão de Valores Mobiliários
(CVM), mas ainda não divulgou uma estimativa de preço para os papéis
nem a quantidade que será vendida. Outras empresas, como Renova Energia
e Ecorodovias, também se preparam para estrear na BM&FBovespa.
Para notar a expressão deste volume , de janeiro a maio do ano
passado, quando o mundo ainda vivia com o temor da crise financeira
internacional, ocorreu apenas a oferta secundária das ações que o
Citigroup tinha na Redecard, no valor de R$ 2,2 bilhões, em uma
transação diretamente ligada com a turbulência, pois o banco precisava
fazer caixa.
Em 2007, quando o total de ofertas de ações somou R$ 75,4 bilhões,
as operações registradas em janeiro e fevereiro alcançaram R$ 7,1
bilhões.
Apesar da fila de operações, a presidente da Comissão de Valores
Mobiliários (CVM), Maria Helena Santana, descartou nesta semana o risco
de haver uma bolha nas ofertas de ações. Para ela, os investidores
estão prestando atenção no que fazem.
Segundo Bruno Lembi, sócio da empresa de assessoria financeira M2
Investimentos, é possível notar que os investidores pessoa física estão
mais atentos e seletivos quando o assunto é oferta inicial de papéis,
caso da Aliansce, Multiplus e BR Properties. "Não é mais como acontecia
no começo", afirma o especialista, que diz haver preocupação sobre o
fluxo e sobre como os estrangeiros estariam vendo a operação.
Esse pé atrás, de acordo com Lembi, decorre da precificação dos
papéis, que às vezes acaba tirando o prêmio que o investidor que entra
na oferta poderia ter. "Acaba sendo um tiro no pé, porque o investidor
percebe isso, e aí fica mais difícil fazer uma oferta depois."
Em relação às ofertas subsequentes - de empresas que já possuem
ações negociadas na bolsa - a receptividade é maior, garante o sócio da
M2 Investimentos. "Essas operações têm sido muito bem-sucedidas, até
porque o mercado bate demais no papel à vista e normalmente tem um ágio
interessante para o investidor ganhar na oferta", afirma Lembi.
Um risco que deve ser observado pelos bancos coordenadores e pelos
emissores é o de haver excesso de operações ao mesmo tempo, explica
Silvio Paixão, professor da Fipecafi e planejador financeiro
certificado. "Se o mercado for de 10 e você colocar oferta de 20, não
vai dar certo. Ou então o preço vai cair", afirma o especialista.
De forma geral, no entanto, Paixão considera que é natural a
retomada das operações no cenário que se desenha para 2010, de inflação
dentro da meta, Selic perto de 9%, taxa de câmbio sem grandes
oscilações e crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de cerca de 5%.
"Esse nível de taxa de juros não atende às expectativas do investidor
no médio prazo. Dentro dessas características, as pessoas que são
superavitárias vão pensar em renda variável", diz o professor.
Do lado das próximas ofertas, além do setor imobiliário, outros
segmentos que devem aparecer com destaque neste ano são os de
infraestrutura, incluindo transporte e logística, saúde e commodities,
o que abarca também empresas da cadeia do petróleo. A avaliação é de Daniel Facó, sócio do escritório Machado, Meyer.
Voltando para a análise das operações que já estão com o
calendário divulgado, o investidor precisa prestar atenção nas
características de cada oferta. A distribuição da PDG Realty, por
exemplo, será toda secundária, por meio da qual o dinheiro vai para o
bolso dos sócios, e é motivada pelo interesse do acionista vendedor de
encerrar um fundo que tem como cotistas ex-sócios do Pactual que
ficaram em lados distintos após a recompra do banco. Na hora da
alocação, os atuais investidores indiretos poderão exercer direito de
preferência e ficar até mesmo com todo o lote colocado à venda.
Por outro lado, o papel da PDG já caiu mais de 10% desde o anúncio
da oferta, o que alguns analistas consideram como positivo para quem
for entrar.
A Aliansce, por sua vez, já tinha tentado listar ações na Bovespa
em 2007, mas condições adversas de mercado levaram ao adiamento da
operação. A oferta terá uma parcela primária, em que o dinheiro vai
para o caixa da empresa, e outra secundária, por meio da qual o fundo
GBP I, gerido pelo Gávea, do ex-presidente do Banco Central Armínio
Fraga, vai reduzir a fatia na companhia.
Considerando o preço estimado de R$ 10 a R$ 13 por papel, a
empresa chegará á bolsa com valor de mercado de R$ 1,39 bilhão a R$
1,81 bilhão. Para comparação, a BR Malls, que também atua no segmento
de shopping centers, é avaliada em R$ 4,38 bilhões, a Multiplan vale R$
5,5 bilhões, a Iguatemi, R$ 2,44 bilhões e a General Shopping, R$ 504
milhões.
No acumulado dos nove primeiros meses de 2009, a Aliansce teve
lucro líquido de R$ 18,7 milhões, revertendo prejuízo de R$ 10,9
milhões de um ano antes. Já a receita líquida de janeiro a setembro
somou R$ 97 milhões, alta de 40% sobre 2008.
Outra estreante na bolsa será a Multiplus, empresa que assumiu o
programa de fidelidade da companhia aérea TAM e tem um modelo de
negócios ainda pouco conhecido. Tendo em conta o preço estimado para a
ação, de R$ 18 a R$ 24, a empresa sairia com valor de mercado de R$ 2,8
bilhões a R$ 4,1 bilhões. A TAM fechou 2009 valendo R$ 5,5 bilhões.
Conforme o balanço pro forma com base no resultado do Programa TAM
Fidelidade, a empresa teve lucro de R$ 95,1 milhões de janeiro a
setembro de 2009, o que representa alta de 60% ante o mesmo período de
2008. A receita cresceu 37%, para R$ 595 milhões.
(Valor Econômico 21.01.2010/Caderno D1)
(Notícia na Íntegra)
