Clube escala craques da Gol, Inpar, Santander, Natura e Oi para
contratar jogadores como Robinho e levantar recursos no mercado de
capitais
Em uma tarde no final de janeiro, o presidente do conselho de
administração da Gol, Álvaro de Souza, participava de uma reunião em
seu escritório, no sétimo andar de um edifício comercial na avenida
Juscelino Kubitschek, na capital paulista. Era a quinta vez, em menos
de um mês, que se reunia para tratar do mesmo tema com um grupo de
homens de negócios que incluía banqueiros, empresários e executivos de
grandes companhias. Ao contrário do que se possa imaginar, o assunto
não era a segunda maior empresa aérea do país. Acomodados ao seu lado,
ou por teleconferência, todos acompanhavam o relato do vice-presidente
do Santos, Odílio Rodrigues Filho, e do gerente de Marketing do clube,
Armênio Rodrigues Neto. Despachados à Inglaterra para negociar com o
Manchester City o retorno do atacante Robinho ao Brasil, ambos expunham
por telefone os termos que a equipe inglesa exigia para liberá-lo - o
principal era que não pagariam um tostão de seu salário enquanto
estivesse emprestado à Vila Belmiro. Um salário, diga-se, de 1 milhão
de reais mensais, dos quais o Santos só conseguiria bancar 160.000
reais. Após uma hora de debates, os participantes concluíram que era
possível repatriar o jogador. Odílio recebeu o sinal verde para assinar
o acordo. Para comemorar, o presidente alvinegro, Luis Álvaro de
Oliveira Ribeiro, presente à reunião, estourou uma champagne e brindou
com Souza e os demais.
A volta de Robinho é considerada a primeira grande vitória de um
grupo de homens de negócio que tentava, havia quase 20 anos,
influenciar os rumos do Santos. "Eles foram absolutamente decisivos
neste episódio", afirma Ribeiro. O embrião da turma se formou em 1992,
com Álvaro de Souza, que na época era um executivo em ascensão no
Citibank do Brasil - e viria a presidir o banco no ano seguinte.
Inconformados com a estiagem de títulos - o último havia sido
conquistado em 1984 -, uma trupe de executivos santistas começou a
discutir como fazer o clube voltar aos bons tempos. A idéia era colocar
sua experiência corporativa a favor da diretoria da equipe - já
comandada, naquela época, por Marcelo Teixeira - para melhorar a
gestão, captar recursos e investir em bons jogadores.
As conversas com a diretoria do time não foram adiante, mas o
grupo nunca mais se separou. Em 2002, no mesmo ano em que o Santos
conquistou o Campeonato Brasileiro e revelou a geração de Robinho,
Diego e Elano, a turma de torcedores engravatados ganhou ares de
torcida organizada. Os empreendedores alvinegros fundaram a Resgate
Santista, uma agremiação com a qual colaboram mensalmente e que se
reúne sem muita periodicidade na casa ou no escritório de quem estiver
disponível. No ano passado, para eleger Ribeiro presidente do clube e
encerrar a hegemonia de Marcelo Teixeira, a Resgate entrou em campo com
um time de peso, reunido na Gestão Unificada de Inteligência e Apoio ao
Santos (Guia). Entre seus 22 integrantes, figuram nomes como o de
Álvaro Simões (presidente da incorporadora Inpar); Celso Loducca (da
agência de publicidade Loducca); Fábio Barbosa (presidente do Santander
e da Febraban); Guilherme Leal (um dos donos da Natura); Luiz Eduardo
Falco (presidente da Oi); e Pedro Mello, presidente da KPMG.
Da cartola ao terno e gravata
O objetivo desses pesos-pesados do mundo corporativo é promover
uma verdadeira reviravolta na situação do clube. "Hoje, dos quatro
grandes clubes paulistas, o Santos é o que possui a situação mais
delicada", afirma Claudinei Santos, coordenador do Núcleo de Negócios
do Esporte da ESPM. Ninguém sabe o tamanho da dívida do clube - nem
mesmo seus atuais dirigentes, que evitam falar em cifras publicamente.
"Os números estão sendo auditados pela KMPG", afirma Ribeiro. De
concreto, o balanço de 2008 (último disponível) mostra uma dívida de 45
milhões de reais. Parte desse compromisso é de empréstimos bancários
cujo avalista é a Universidade Santa Cecília, controlada pelo
ex-presidente do Santos, Marcelo Teixeira. O cartola também teria
alegado que aplicou 12 milhões de reais do próprio bolso no time. No
final do mandato, ameaçou vender jogadores como Neymar, Rodrigo Souto e
Paulo Henrique Lima para quitar parte das dívidas da equipe consigo
mesmo.
Agora, o Santos quer trocar os tempos da cartola pelos do terno e
gravata. Os executivos e empresários não apenas ajudaram a eleger
Ribeiro mas também estão participando da administração da Vila Belmiro.
Álvaro de Souza, da Gol, José Berenguer Neto (vice-presidente do Santander), Walter Schalka (presidente da Votorantim
Cimentos), e Eduardo Vassimon (membro do conselho de administração do
Itaú BBA) tornaram-se, oficialmente, assessores especiais da direção.
No organograma do clube, reportam-se a Ribeiro. Na prática, porém, eles
são os representantes de um comitê gestor que é o verdadeiro órgão de
decisão do clube. Além dos quatro, essa instância é integrada ainda por
Álvaro Simões, da InPar; Fernando Silva (diretor de negócios da Time
For Fun); Fernando Martins (diretor de Marcas e Estratégia do
Santander); o advogado Luiz Eduardo Lucas; Ribeiro (presidente do
Santos) e Odílio Rodrigues Filho (vice-presidente do clube).
O comitê reúne-se durante duas horas a cada 15 dias, mas vários
e-mails e telefonemas são trocados nesse meio-tempo. Como a grande
maioria dos integrantes mora na capital paulista, os encontros costumam
ser na casa de algum deles. Além de questões administrativas de rotina,
são discutidas as estratégias do clube. Todas as decisões são tomadas
por consenso, segundo Ribeiro. Depois de trazer Robinho de volta, o
próximo passo dos novos dirigentes santistas é preparar o clube para a
criação de um fundo de investimentos de 40 milhões de reais. Os
recursos serão aplicados na compra dos direitos econômicos de jogadores
em ascensão.
O IPO do Santos
A intenção é lançar o fundo ainda neste ano, mas, para tanto, o
clube passará por um verdadeiro choque de governança corporativa. A
reestruturação soa quase como uma abertura de capital. Primeiro,
renegociar a dívida e alongar seu perfil – algo a cargo dos executivos
de finanças que se tornaram assessores especiais. Segundo,
profissionalizar a gestão. A diretoria e os assessores especiais não
são remunerados. Já os gerentes executivos, que ganham para trabalhar
no clube, foram selecionados com critérios de mercado. Alípio Labão,
novo gerente administrativo, por exemplo, possui mestrado e doutorado
na área. Armênio Neto, responsável pelo Marketing, tem curso de
especialização em Marketing esportivo. Tudo isso deve ser formalizado
por um novo estatuto, que a diretoria espera aprovar no primeiro
semestre. O documento deve estabelecer limites para a reeleição dos
dirigentes; direito de voto mais amplo para os associados; e a
obrigação de auditar os balanços do clube.
Arrumar a casa é uma das condições indispensáveis para lançar o
fundo de investimentos. O motivo é o modelo que o time quer adotar. Ao
contrário dos demais, o fundo alvinegro passará por toda a tramitação
de um produto financeiro convencional, incluindo o registro na Comissão
de Valores Mobiliários (CVM). É provável, porém, que a aplicação seja
oferecida apenas a investidores qualificados - aqueles que, no jargão
do mercado, desembolsam no mínimo 300.000 reais. Sua elaboração é
acompanhada mais de perto por Álvaro de Souza, Berenguer e pelo
advogado Luiz Eduardo Luca.
Fundos de investimento em jogadores de futebol não são
propriamente uma novidade. Há pelo menos quatro no Brasil, que
administram um patrimônio total de 250 milhões de reais. O Cedro, por
exemplo, é o principal veículo de investimento da Traffic no Palmeiras.
Mas, antes mesmo antes de sair do papel, o fundo santista já é
considerado uma inovação. "Será a primeira vez que o futebol irá ao
mercado de capitais de verdade", afirma o advogado Ivandro Sanchez, especialista em Esportes e sócio do escritório Machado, Meyer, Sendacz e Ópice.
A grande inspiração da Vila Belmiro são, obviamente, os clubes
europeus. O Benfica e o Barcelona, por exemplo, já contam com fundos de
investimento públicos, com gestores profissionais, prospectos de
investimento e expectativa média de retorno.
É claro que os times brasileiros ainda estão bem distantes de,
literalmente, lançar ações na bolsa, como já fizeram o inglês
Manchester United e o espanhol Real Madrid. Mas a entrada em campo de
empresários e executivos de peso é um sinal da vontade de
profissionalizar esse esporte. "A participação de pessoas deste nível é
muito saudável, porque ajuda a melhorar o ambiente do futebol", afirma Sanchez, da Machado, Meyer, Sendacz e Ópice Advogados.
Resta saber se Álvaro de Souza, Walter Schalka e companhia conseguirão
repetir, fora de campo, as jogadas rápidas e as pedaladas que levaram o
Santos à atual liderança do campeonato paulista.
(Portal Exame 22.02.2010)
(Notícia na Íntegra)
